sexta-feira, 29 de abril de 2016

O começo da melhora - uma carta para mim mesma

Tudo é muito estranho.

De repente você acorda de um pesadelo que não tinha fim e vê que existe vida. Vida. Não a morte. A vida me chama, como se sussurrasse: Cléa, está na hora.. acorde, tem um mundão lá fora esperando por você.

E eu acordei. Fui espreguiçando aos poucos. Pus o pé na grama. Deixei o sol bater no rosto. Me alonguei. Caminhei. Sorri. Dancei. Comi pouco. E a vida foi chegando no meu coração. E a sensação foi maravilhosa!

Bem-vinda à Terra, Cléa. Tem um mundão de coisas te esperando. Aos poucos você vai começar a enxerga-las com mais amor. Mais carinho. Mais gratidão. Ria, caminhe, abrace, ame!

Mas vamos devagar. Não precisa sair correndo. Vá no seu ritmo. Um dia de cada vez. Um passo de cada vez. Um respirar de cada vez. Porque o mundo não vai embora. Ele está aqui te esperando. Aos poucos você vai melhorar. E vai conseguir enxergar a beleza que está em volta. As pessoas que te rodeiam. 

Diga adeus a quem não te acompanhou nesta caminhada triste. Receba os amigos novos que estão chegando em sua vida. Seja feliz com eles. Compartilhe esta nova etapa. Abrace, ria, chore de alegria.

O mundo está te esperando. Ele nunca foi embora, pois ele acreditava em você. Seja feliz, Cléa. 

segunda-feira, 11 de abril de 2016

O vazio

De repente minha vida virou este grande vazio. Não ando, não falo, não sorrio.... não nada.

Estou presa dentro de uma doença que não passa, de uma dor que não tem cura.

Os dias passam e eu não sei mais o que fazer para melhorar, pois não tem nada a ser feito.

Apenas esperar.

De repente, minha vida virou este grande poço escuro. Onde a luz não brilha. Apenas o vento uiva.

A vontade é de sumir. Pra que viver uma vida dessas?

Por que ficar?

Pra que esperar?

De repente minha vida virou este grande nada. Não faço nada, não vejo nada, não sinto nada....

Onde estava o amor que estava aqui?

Onde estava o bem-estar? E a esperança?

Estão esperando?

sábado, 9 de abril de 2016

Sábado de sol

Até oito anos atrás, eu não podia ver o sol brilhando num fim de semana, que saía correndo, colocava um biquíni e ia pro clube tomar sol. Amava o sol. Ele era meu astro rei.

Mas... há oito anos algo morreu dentro de mim. Nasceu meu filho mais novo.... eu tive tumores no fígado, depois passei por uma cirurgia de coluna que foi muito intensa em termos de dor, e depois veio o divórcio. 

Fiquei gorda e, se não fosse um episódio de mania da bipolaridade, teria sido assim até agora. Mas o ano de 2013 foi repleto de manias, de ficar sem comer, de me exercitar como louca e transar com o primeiro que aparecesse, afinal, eu estava magra e podia tudo.

Algo morreu dentro de mim. Não desejo mais sábados de sol. Eles me incomodam. Parece que existe uma obrigação de sairmos pra rua, de vivermos. E eu não consigo. Tenho dado preferência para os dias nublados. Se estiver chovendo, ainda melhor. Pois aí temos uma desculpa. 

Não vejo a hora de fazer frio. O calor tem me incomodado muito. O peso, meus pés doem, minhas roupas parecem de uma senhora de 60 anos.

Algo morreu dentro de mim. Não consigo mais viver como há oito anos.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

A vaidade se esvai

Toda mulher gosta de ir ao salão... fazer o cabelo, tratar das unhas, depilação. Quem não gosta de um mimo?

Não quando se está com depressão.

Quando estamos deprimidos, nada disso importa. A unha fica por fazer.... meses por fazer. Depilação? O que é isso mesmo? Cabelo?

Nem colocar um brinco eu coloco mais.

O básico, só o básico. Tomar 1 banho por dia. Escovar os dentes após as refeições. Usar calcinha e soutien limpos. Calça. Blusa. Sandália, pois o pé está muito inchado. Passar um pente no cabelo. Pegar a bolsa. Ir na terapia. Voltar pra casa. Tirar a sandália. Almoçar. O básico do básico do básico.


quarta-feira, 6 de abril de 2016

Troca de experiências

Quando eu abri uma página de comunidade no Facebook, há dez dias, não imaginei que depois de tão pouco tempo eu já teria 13 mil seguidores. É gente que sofre como eu, que está deprimida, não tem com quem conversar, ou precisa apenas de uma palavra de incentivo.

Claro que tem muitos beatos dizendo que minha cura só é possível através de Jesus, sem o mínimo respeito se eu tenho alguma religião, ou não. Mas na maioria é gente buscando informações, querendo uma mão estendida.

Atualmente estou numa fase da doença que estou caminhando passinhos pequenos todos os dias. Que cada coisa que consigo fazer é uma pequena vitória. Hoje consegui caminhar 15 minutos, mas amanhã não sei como será.

O fato de ter uma rede com mais de 13 mil pessoas interessada no assunto mostra o quão pouca informação temos e como existe pessoas desinformadas, ou que querem apenas um dedo de prosa. Pra mim está sendo uma lição, uma troca, conversar com gente tão diversificada, de todos os lugares do Brasil, que sofrem diariamente, sabem o que é ser discriminado por uma doença...

Muitas vezes escuto dos outros que não posso ficar com o "estigma" de ser a moça depressiva. Mas é quem eu sou, não dá pra separar quem eu sou da doença, pois essa sou eu. Dá pra entender? Estar bem ou mal é uma questão de balanço químico do meu cérebro. Mas essa sou eu, sem tirar nem por. E eu gosto de compartilhar com os outros, e mostrar que não estou sozinha.


terça-feira, 5 de abril de 2016

Vida congelada

Como você está?

Igual.

Mas nada mudou?

Sei lá, talvez um micronésimo de centímetro.

E o que o médico diz?

Ele já não diz nada. Ele tem seu consultório, com seus outros pacientes. Quem tem que esperar sou eu. Ele só vai me ver daqui 20 dias.

E aí?

Aí que minha vida congelou. Nada muda. Não tenho novidades pra contar.

Nada?

Só que estou muito gorda e finalmente tive coragem de me pesar. Levei um susto, resolvi fechar a boca.

Ah, mas isso já é uma coisa boa.

Sim.

Você não está feliz com isso?

Não. 

E como faz?

Não faz. Deixa o tempo passar.

Por que?

Porque minha vida congelou.

domingo, 3 de abril de 2016

Um pouquinho da minha história

Fui uma criança feliz. Sou filha única e sempre questionei o porquê disso, mas isso é outra história. Na escola, eu tinha uma turma muito unida, fazíamos tudo juntos. Além da escola, eu estudava ballet clássico e levava super a sério. Nas férias, eu ia pra um acampamento de férias e tinha outras amizades. E era feliz.

Tudo começou quando eu mudei de escola. A escolha não foi minha, foi da minha mãe. E lá fui eu, saída de uma escola super tradicional judaica para uma escola papo-cabeça frique-hippie. Não consegui fazer amigos lá, era todo mundo tão diferente! Eu continuava fazendo ballet e indo pro acampamento e isso me segurava. Mas já havia algo errado em mim. Uma tristeza que eu não conseguia explicar.

Quando terminei o colegial, fui fazer intercâmbio. Eu queria muito ficar numa casa tipicamente americana, daquelas que a gente vê nos filmes. Fui cair na casa de um casal hippie e vegetariano, que não tinha filhos. A casa era suja, eles não eram como nos filmes e eu não sabia lidar. Demorei dois meses para ficar fluente no idioma. Engordei muito, só comia, pois não tinha mais onde colocar minha tristeza. Acabado o intercâmbio, voltei para o Brasil, fui fazer cursinho, academia, emagreci, fiquei toda gostosa e a tristeza foi substituída pela alegria e endorfina do exercício. 

Entrei na faculdade e fiz alguns amigos. Também comecei a frequentar um grupo de jovens do clube. Com eles fiz várias viagens aventureiras pelo Brasil e também fui para Israel. Aliás, é uma viagem da qual me orgulho muito, pois mochilei dois meses sozinha pela Europa. Épocas felizes.

Aos 24 anos fui morar sozinha. É, aquela menina judia filha única lutou contra todos e foi realizar seu sonho de ser independente. Não foi fácil, naquela época não tinha telefone fixo, muito menos celular. Eu tinha um pager para me comunicar com meus pais e falava muito no orelhão. Enfim, depois de muito tempo, meu pai me deu de presente um "tijorola", um motorola enorme para podermos falar. Nessa época, eu já tinha tido meu primeiro namoro mais sério que durou 7 meses e eu não me conformei o porque terminou. Aos 26 anos conheci meu segundo namorado sério, que abusou da minha cabeça dizendo que eu era gorda (eu pesava 56kgs), que eu não vestia vestidos nem saia e assim não era feminina. Ele abusou verbalmente de mim e depois que o namoro acabou eu despenquei. Não conseguia mais dar conta da vida. E essa foi a primeira vez que fui a um psiquiatra e fui diagnosticada com depressão.

O médico me deu Prozac e eu fiquei feliz instantaneamente, Falava muito, amava todo mundo, emagreci muito, a vida era linda. Por seis meses. E o remédio parou de fazer efeito. E aí.... o resto é história. Começou um troca-troca de remédios que dura até hoje. Nesse meio tempo eu casei, cheguei a parar de tomar remédios por 3 anos, pois estava super feliz - e meu médico me deu alta. Mas eventualmente voltei a ficar deprimida e a depressão piorou e comecei a ter crises cada vez piores.

Em 2008, depois do nascimento do meu segundo filho, pesando 90 kgs, fui diagnosticada com três tumores no fígado. Como dois anos antes eu tinha tido um câncer de pele, todo mundo se desesperou. Lá fui eu pra mesa de cirurgia, com os peitos cheios de leite, e um bebê de quatro meses. A cirurgia durou 10 horas e me deu de presente uma cicatriz enorme na barriga, tirando a sensibilidade de 1/4 dela. Os tumores eram benignos. Um ano depois, vou a vez da minha coluna travar de um jeito, que ao fazer ressonância e ver as hérnias de disco, meu médico disse que era cirúrgico. E lá fui eu pra faca, mas antes disso passei um mês esperando o plano de saúde liberar os pinos de titânio que tenho nas costas. Pensa na dor, na depressão, no desespero. Passei um mês dopada, com uma filha de 5 anos e um filho de 1 ano. A culpa.... ah, a culpa.

Fiz a cirurgia e não melhorei. Foi preciso mudar meu ritmo de vida e parar de pegar peso para as coisas irem melhorando aos poucos. No ano seguinte, me divorciei. As coisas não deram certo por uma série de motivos e essa é outra história. Mas a depressão esteve sempre presente e teve épocas que os remédios não davam conta mesmo. Em janeiro de 2014, eu estava saindo de uma época de mania bipolar e comecei a ter problemas dentro de casa com a minha filha. A culpa materna foi maior e a depressão voltou com tudo... e até agora não passou. 

Esse é um resumo bem resumido, mas é o que aconteceu na minha vida até agora.

sábado, 2 de abril de 2016

Os altos e baixos de ser bipolar

Quando alguns homens me diziam que eu era bipolar, pois depois de ter levado um pé na bunda eu os perseguia incansavelmente até ser finalmente bloqueada do Face, do whatsapp e de qualquer resquício de vida, eu dava risada e pensava comigo "imagina, EU NÃO SOU BIPOLAR, sou apenas uma mulher divorciada (ou antes de ser casada, apenas uma mulher) querendo um relacionamento sério". Achava um absurdo me dizerem isso.

Que eu tinha depressão eu já sabia há anos, mas que os meus impulsos, as transas com homens casados e o "rush" de não sermos pegos, que me sentir dançando como eu nunca tinha dançado, no topo do mundo, eram parte de um comportamento bipolar, disso eu não tinha a mínima ideia e até achava ruim quando ouvia.

Analisando minha vida, tinha épocas de mania sim, e muita depressão. Recentemente, em 2013, passei um ano inteiro em Mania, me achando a rainha da cocada preta, dançando, transando loucamente, fazendo dieta, eu era a melhor, a superior, podia gastar o que não tinha, transar sem camisinha, eu era infalível e inatingível e ai de quem não quisesse ficar comigo. Quase arruinei um casamento (mas o cara também teve culpa no cartório), e lá de cima, caí, despenquei, entrei na depressão mais profunda que alguém pode ter.

Não saía da cama, fiquei meses sem conseguir trabalhar... tive épocas de estabilidade, épocas de mais depressão, e agora estou em crise. Já saio da cama, já me visto - mas não me arrumo -, escovo os dentes, tomo banho. Estou gorda enorme, engordei provavelmente mais de 20kgs, não posso ouvir falar em homens nem em relacionamentos, pois sei bem onde isso pode levar. E estou aqui, sentada esperando minha vida ficar estável um dia.

Não lembro de mim estável. Lembro da Super Cléa e da Depressed Cléa, mas nunca de uma Cléa estável. Talvez na época em que conheci meu ex-marido até minha primeira filha nascer eu estive estável, tanto que meu médico me tirou da medicação. Mas logo depois voltei a ficar deprimida,

Life is not easy, principalmente quando a gente descobre que é bipolar.


Lidando com a vida

Ontem, finalmente, após um bate papo com meu psiquiatra, ele resolveu que era hora de aumentar a dosagem de um dos remédios. Eu tomo quatro remédios: Saphris (um antipsicótico), Pristiq (antidepressivo), Lamitor (anticonvulsivante) e Rivotril. O Lamitor dá alergia na pele e deve ser aumentado muito devagar. Estava tomando 50mg dele e agora vamos passar para 100mg. Depois de vinte dias e nenhuma melhora, estava mais do que na hora de aumentar esse remédio e ver se ele começa a fazer efeito.

E a minha vida é assim... de remédio em remédio, esperando que faça efeito. E o que é fazer efeito? É me por de pé cuidando da minha vida, indo ao mercado, trabalhando mais de 1 hora por dia, cuidando dos meus filhos e fazendo tudo o que eu não estou conseguindo fazer agora. De remédio em remédio, há anos, eu busco a estabilidade. Não busco mais a cura, pois, depois de vinte anos, minha depressão, ao meu ver, não tem mais cura. O que eu posso encontrar é estabilidade.

E aí vem a questão do "lidar com a vida". Sou muito ansiosa e me preocupo por antecipação. Meu grande medo é ficar "boa" e daqui alguns meses cair de novo nessa depressão profunda. Eu deveria aproveitar cada dia. Mas já estive tanto nesse lugar aqui que não tem como não pensar nisso. Eu quero estar bem. Mas meu medo é sempre que no dia seguinte eu não esteja. E isso me impede de lidar com a minha vida.

Seja o que for, agora, com o aumento do remédio, espero uma melhora nas próximas duas semanas. Vamos ver.


sexta-feira, 1 de abril de 2016

Exposição

De repente, tem mais de cinco mil pessoas lendo o que eu posto na minha página do Minha Vida com Depressão no Facebook. Fora as milhares que leem e não curtem, assistem os vídeos que gravo com tanto carinho e, às vezes, indignação.

Meu psiquiatra e minha psicóloga querem me proteger de tanta exposição, mas o que eles não sabem é que preciso disso pra viver. Preciso escrever sobre o assunto, sobre a depressão, sobre como me sinto.

Mas é preciso saber separar o joio do trigo.

Ontem fiquei muito mexida, pois postei na minha página pessoal que fui  num mercado judaico e comprei bagels e hering acebolado para matar uma vontade de comer. E logo em seguida uma moça que nem conheço direito já veio me julgado, dizendo que se eu tenho dinheiro pra isso, não deveria então ter uma Vakinha e dizer que não tenho dinheiro para comprar remédio.

Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Me senti nua, violada, triste, emputecida mesmo. Lógico que bloqueei essa pessoa da minha vida.

Não posso ter prazeres pequenos na vida? Preciso viver presa no castelo do meu apartamento porque estou sem grana? Virei uma grande exposição.

Na página do Minha Vida com Depressão ninguém me conhece direito, todos os dias são dezenas de beatas dizendo para eu receber Jesus na minha vida, e não importa o quanto eu diga que fui criada no judaísmo e sou ateia, elas não desistem, parecem que tem o cérebro lavado, que isso é tudo pra elas.

Ter a vida aberta à exposição - e olha que é uma exposição pequena por enquanto - não é fácil. Mas eu preciso fazer isso, vocês me entendem? Como se precisasse para respirar. Como se isso sim resultasse numa melhora do meu estado depressivo - não acredito em cura mais.