sábado, 26 de março de 2016

Os novos profetas (ou "haja saco"!)

Vou insistir nesse tema, pois depressão não é brincadeira e não se cura com Luz. Nem com reza. Nem com voluntariado. Nem com chá milagroso. Nem com a palavra de Jesus. Depressão é coisa muito séria.

Você já ouviu alguém falar para quem tem câncer: "olha, tem um grupo muito bacana onde faço voluntariado, e depois que eu descobri a Kaballah, eu parei com a quimioterapia, e fiquei curada! Vem comigo, você vai ver como te faz bem!"

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, com previsões feitas no século 20, a depressão chegaria em 2030 atingindo 7% da população - ou 400 milhões de pessoas. Mas, ela se adiantou e bateu esse número em 2010, vinte anos antes.

73% dos diagnosticados dizem que há muito preconceito em relação à doença.
60% têm medo de ter recaída.
67% se esforçam para os outros não perceberem quando não estão bem.
45% trocam de médico desde que iniciaram o tratamento
47% já fez ou tem acompanhamento terapêutico
57% tem outro parente na família com depressão
23% levou de 1 a 3 meses para ter alguma melhora

Essa pesquisa foi feita pelo Datafolha em 2014, mas continua muito atual.

O dado que mais de 70% vêem o preconceito em relação à doença é alarmante, E é por isso que estou aqui, escancarando minha vida, me expondo. Porque as pessoas precisam enxergar que não adianta cura milagrosa. Que é necessário acompanhamento médico. Um bom diagnóstico, um bom médico e acertar no remédio. Terapia, amigos e familiares ajudam.

Não adianta ir ao Santo Daime. Nem fazer macramê - se bem que trabalhos manuais ajudam, mas não curam. Não adianta viver de Luz, nem ir na igreja todos os dias.

Não acho ruim ter fé e não estou aqui falando mal de religiões. Eu particularmente sou uma judia ateia, se é que isso pode existir. Eu gosto das tradições judaicas, mas não acredito mais em deus há muito tempo. "que horror", você pode pensar. Mas essa é a MINHA ESCOLHA.

Você pode ser agnóstico, católico ortodoxo, espírita. Mas saiba que existem mais de 300 tipos de depressão e elas não se curam com reza. Elas se curam com cuidados médicos.

Para vocês terem uma ideia da diferença de uma depressão leve e uma depressão pesada.... em setembro de 2012 eu estava com a minha depressão controlada, estável, mas triste, Estava gorda e com a autoestima baixa. E depois de vinte anos resolvi voltar a dançar. A depressão era leve naquele momento, e a dança fez maravilhas. Eu tive força de vontade, emagreci 16 quilos, estava dançando 2, 3 horas por dias e estava no topo do mundo - mas depois fui descobrir que isso tem muito a ver com meu lado bipolar.

Pulamos para janeiro de 2016. Eu acabei de mudar de médico e os remédios começaram a fazer efeito. Depois de dois anos parada, eu resolvi voltar a dançar. Durou 1 mês. Eu não aguentei. Eu não saio de casa e dar uma volta no quarteirão é um suplício. O que mudou? Mudou a gravidade da doença. Antes eu estava com um câncer de pele que bastava uma pequena cirurgia e pronto, estava curada. Agora, esse câncer se espalhou por um linfonodo e eu preciso de um tratamento mais agressivo. 

Estou usando o câncer como exemplo da gravidade da coisa. Pois depressão e câncer, diante dos meus olhos, são doenças parecidas. A única coisa é que quem tem câncer tem apoio, tem amigos e não tem vergonha de falar sobre sua doença nem é discriminado.

Então, não escutem os novos profetas. Eles não sabem o que VOCÊ está passando.