sexta-feira, 31 de julho de 2015

Quando você está melhor, mas não do jeito que os outros acham

Quando entramos numa crise de depressão, a situação é tão surreal para quem está dentro quanto para quem está fora. Quem está dentro perde a noção de tempo e espaço, de certo e errado, o mundo acaba. Para quem está fora, não é possível imaginar o que estamos passando.

Mas aí com tratamentos e mais tratamentos, começamos a sair do buraco do furacão, numa jornada diária para ficarmos melhores e voltarmos à realidade. Veja bem: a realidade que a sociedade chama de realidade > acordar, se arrumar, ir trabalhar, cuidar dos filhos, fazer supermercado, etc. 

Quem está saindo de uma crise de depressão precisa de uma certa calma. Começar devagar. Ir absorvendo o dia a dia. Mas, quem está de fora não enxerga isso. Acha que só porque você levantou, se arrumou e voltou a trabalhar, puft, acabou, tá tudo bem. E te joga uma carga como se nada houvesse acontecido.

Hoje completei 20 dias de volta ao trabalho, após 34 dias de licença. Não foram 20 dias fáceis. A mudança de medicamento me fez ter insônia, dormir mal e não ficar tão alerta durante o dia. Tive alguns ataques de pânico. Minha vida social continuou praticamente nula, tirando apenas um cineminha com uma amiga. A vida de mãe estava bem devagar. 

Mas hoje senti o peso (e que PUTA PESO) das pessoas que me cercam acharem que nada aconteceu. Que eu não sou doente. Que tá tudo bem. 

NÃO ESTÁ. 

Ainda estou me recuperando. Ainda preciso pegar leve. 

Como explicar no trabalho que não estou preparada para o estresse? Que tenho tomado Rivotril durante o expediente para aguentar o tranco? Que tenho gastado uma fortuna para me tratar, mas não tenho tido tempo de processar as coisas no tempo em que é necessário para o mundo real? Que fazer exercício físico, que é CRUCIAL PARA O MEU TRATAMENTO, não está rolando porque não dá tempo? Como explicar para terem paciência comigo? 

Estou sentindo o peso do mundo nas minhas costas. As crianças voltaram hoje das férias para a minha casa. Segunda-feira as aulas começam. A rotina volta. A rotina de uma pessoa saudável. 

Mas eu não estou preparada. Ainda não. Tenho um longo caminho a percorrer. Como explicar que apesar do cabelo mudado, das unhas feitas, da dieta, de algumas risadas, eu ainda choro, e o melhor lugar no mundo ainda é minha cama, e que não tenho paciência para muita coisa. Como explicar?? Como explicar???

Eu não sei.