quinta-feira, 25 de junho de 2015

Sumir do mapa

** AVISO ** - POST FORTE

Desde que fui diagnosticada com depressão, tenho essa falsa sensação de que "sumir do mapa" vai resolver todos os meus problemas. No começo, o tal desaparecimento estava normalmente ligado a uma viagem, mudança de cidade, etc. Mas há alguns anos, o "sumir do mapa" passou a ter um significado mais metafórico: eu realmente queria evaporar. Deixar de existir. Só assim a dor passaria. 

Em 1999 em resolvi sumir do mapa, ou melhor, tentar a vida do outro lado do mundo e fui com a cara e a coragem para a Austrália, na verdade verdadeira, para conhecer um cara com quem eu estava me correspondendo online. Sim. Você leu direito: 1999!!! Eu tinha 28 anos, não tinha tido nenhum namoro que tivesse sido significativo em termos de tempo, e eu queria conhecer alguém, casar, etc e tal. Foi no antigo Match.com que eu conheci o Boaz. Depois de seis meses de ICQ (lembram?), muitos e-mails e telefonemas internacionais, veio o convite: "vem me visitar". Eu entendi "vem morar comigo" rs, me empacotei e fui - para horror dos meus pais. Como conhecer alguém pela Internet não era nada comum naquele momento, eu dizia a todos que ia tentar a vida por lá.

O namoro durou dois meses, foi muito interessante viver o dia a dia do australiano (apesar de estar na casa de uma família de israelenses que imigrou para a Austrália), mas percebemos que não era caso de casamento. Peguei uma mochila emprestada e passei o resto do tempo do meu visto viajando pela costa australiana. E voltei pro Brasil, com o coração pequenininho. Minha "fuga" não havia dado certo.

Um ano depois conheci meu ex-marido, mas isso é outra história.

Enfim.... sumir do mapa. Eu tenho essa fixação por pegar o carro e ir embora. Se vou voltar, não sei. Tendo filhos, é uma batalha interna constante. Muitas vezes fico sentada dentro do carro pensando... é hoje!!! "Vou embora dessa cidade", "preciso passar um mês na praia", "quero sumir". Afirmações de uma pessoa passando por uma depressão filha da puta que realmente acha que sumir vai resolver todos os problemas. Às vezes penso que recomeçar a vida em um lugar onde ninguém me conhece vai ajudar na minha doença. Depois percebo que a doença está em mim e, não adianta... pra onde quer eu eu vá, ela irá comigo. 

Sumir do mapa também tem a conotação de morrer? Claro!!!! Nos piores dias (noites na verdade) da minha depressão, pensei em várias coisas, pensei em métodos, pesquisei na internet. Com dor, sem dor? Sim, não fique chocado. Quem está extremamente deprimido é super suicida sim. Sem tabus. A pessoa quer que a dor pare. É uma dor inexplicável que sentimos. Uma dor na alma. 

Apesar de ser judia, há muitos anos deixei de acreditar em Deus e me considero ateia.  No que acredito? Em mim. Não acredito em nada mais. Portanto, dizer que tenho dor na alma é estranho, pois não acredito em alma. Nem em vida após a morte, nem em paraíso e inferno, nem em extraterrestres. Acredito que estou aqui agora respirando e vivendo, e que amanhã tudo isso pode mudar. E o que é morrer? É deixar de existir. É sumir do mapa.

Mas por que eu não vou em frente e sumo do mapa? Ainda não sei responder. É uma pergunta muito complexa. Posso sumir e voltar de vez em quando? 

Tem dias que a dor é tamanha.... mas tem dias que eu quero viver e ficar boa e reconstruir minha vida - já sou craque em reconstruir minha vida, mas ela acaba sempre se despedaçando de novo. 

Não consigo não pensar nos meus filhos. Eu acordo e vou dormir pensando no sorriso deles e o quanto eles me amam incondicionalmente, mesmo eu estando doente, gorda, sem paciência pra brincar nem ouvir as novidades que eles têm pra me contar. 

Eles são a única coisa no mundo que me mantém aqui atualmente. 

Por hora, não sumirei do mapa.