quarta-feira, 24 de junho de 2015

Quem sou eu?

Nos últimos dias, algumas pessoas falaram "escreve um livro", "escreve um blog". Mal sabiam elas  que em agosto do ano passado eu havia começado este blog sobre a minha vida com depressão, mas fiz apenas um post e nunca divulguei. Porque eu não sabia se isso me ajudaria ou atrapalharia. Eu quero muito que me ajude. Compartilhar o que sinto pode ajudar pessoas que passam pelo mesmo que eu a se sentirem iguais. Compartilhar o que sinto pode ajudar familiares e amigos de quem sofre de depressão a entendê-los melhor. Portanto, por que não tentar? O máximo que pode acontecer é ninguém ler o que eu escrevo, certo?

Enfim, essa é minha história:

Fui diagnosticada com depressão aos 25 anos, após não lidar muito bem com o término de um namoro. Não era tristeza, era algo muito maior. Mas, eu sei que minha depressão começou muito antes. Provavelmente por volta dos 15 anos, quando mudei de escola e fui estudar em um colégio que não tinha absolutamente nada a ver comigo. Sendo judia e tendo passado 14 anos da minha vida fechada na comunidade (apesar de ser totalmente liberal), foi um choque cultural sair da caixinha. E eu não me adaptei. E me vi sozinha. Muito sozinha. Com certeza, a sementinha da depressão começou a crescer nesse momento. Fora da escola eu tinha minha amigas do ballet, tinha meus amigos do acampamento que eu frequentava, mas no dia a dia.... minha vida era sem graça e solitária. Eu passava os fins de semana trancada no meu quarto. Ouvindo músicas de fossa e chorando. Mas ninguém percebeu, muito menos eu. Eu apenas me achava diferente dos outros. E eu era mesmo. Eu tinha depressão. E demorei muito para descobrir porque eu me sentia daquele jeito.

Enfim, diagnosticada e colocada no Prozac, a droga da felicidade. De repente, eu, que me sentia infeliz o tempo todo, passei a ser a pessoa mais feliz do mundo. Perdi o apetite, emagreci demais, tinha toda energia, estava sarada, malhada feito uma louca. Tudo isso durou seis meses, até que o Prozac parou de fazer efeito. E aí.... foram 20 anos de remédio em remédio em terapias mal sucedidas e mais remédios e mais remédios, melhoras, pioras, até que conheci meu ex-marido e minha felicidade foi tão grande que eu senti que poderia parar de tomar remédio e assim o fiz. Foram três anos sem tomar nenhum remédio - época que perdi meu pai, me casei e tive minha primeira filha. Segurei a onda mais ou menos. Depois que a Julia nasceu, não tive depressão pós-parto. Mas depois de alguns meses, as coisas foram decaindo e decaindo e eu voltei pro meu médico de tantos anos.

O que posso dizer? Que nesses últimos 11 anos troquei de remédios 200 vezes. Tive épocas boas e felizes, claro. Mas minhas mudanças de humor fez com que eu perdesse muitos amigos, que eu me desentendesse com familiares, e que eu sentisse mesmo que eu era muito diferente. Porque eu tinha depressão. E quem tem depressão é diferente. Vê a vida com outros olhos. Sente diferente. Não estou falando isso de maneira "ah, somos especiais". Pelo contrário. É horrível.

Com certeza magoei muita gente nesses últimos 44 anos, por coisas que disse ou escrevi. Aliás, eu escrevo. Muito (por que será mesmo escolhi ser jornalista??) E sou honesta. E tem algo que me impede de mentir, então eu falo a verdade e a verdade machuca. Se isso é uma característica minha ou da depressão, eu não sei. Mas não é fácil.

Enfim... me separei em 2010 por uma série de motivos que não são relevantes nesse momento. Me vi sozinha com duas crianças full time, tendo que trabalhar full time. Demorei mais de dois anos para conseguir me reerguer. O remédio segurou a onda, mas tinha dias que eu queria sumir da face da Terra. Aliás, eu tenho muito disso: vontade de sumir da face da Terra.

No fim de 2012 voltei a dançar, coisa que estava adormecida em mim - sou bailarina clássica. De repente me vi fazendo algo que eu amava. E resolvi me amar. Fiz dieta, continuei dançando, emagreci... mas a depressão continuava rondando, sempre rondando. Mesmo dançando, magra, com remédio, eu tinha minhas crises de choro, meus desesperos, minha vontade de sumir.

Até que em janeiro de 2014 eu fui expulsa da escola de dança que eu tanto amava. E parei totalmente de fazer atividade física por três meses. Juntou-se a isso um probleminha com a minha filha e o 'relacionamento' com um cara filho da puta, que me enganou pacas. Pronto... era a receita perfeita para eu despencar. E eu despenquei. Meus remédios pararam de fazer efeito. Eu, pela 1a vez na vida, não conseguia sair da cama. Nem trabalhar. Nem cuidar dos meus filhos. Só comia comia comia e comia. Engordei 20 quilos. Fiz um pouco de yoga aqui e ali. Mas não tinha disposição pra nada. Meu médico trocou tantas vezes meus remédios que eu perdi conta do que eu já havia ou não havia tomado. Depois de 40 dias tentando, finalmente dois remédios fizeram efeito e eu passei duas semanas sem sentimento algum. Imagina o que é isso? Não sentir NADA? Foi um platô. Nisso, comecei a fazer terapia comportamental. Era outubro. E eu não conseguia fazer nada. E pensei - e tentei - me matar pela primeira vez. Mas quem tem filhos não consegue. Até pensa. Até tenta. Mas não consegue. 

Aos poucos fui melhorando. Bem aos poucos. Não cheguei a ficar 100% em nenhum momento. Virou o ano... 2015. E minha vida parecia estar empacada. Perdi parte considerável de um trabalho e isso me obrigou a voltar a procurar emprego. Eu trabalhava há dez anos por minha conta - os últimos quatro anos em home office. E isso mascarava minha depressão. Porque eu não precisava prestar contas pra ninguém do que estava sentindo, ou porque eu não conseguia sair da cama antes do meio-dia.

Em março, voltei a trabalhar em uma agência. E foi PUNK!!!! Ficar sentada das 9 às 18hs no meio de um monte de gente que eu não conhecia, ter que falar bom dia, sorrir, ser gentil, esconder com todas as forças que eu não estava tão bem assim. Mas todos temos contas pra pagar, não é mesmo? (Bom, nem todos, tem dias que eu queria tanto ser dondoca...).

E aí os dias foram passando, passando, passando e há mais de um mês de novo, cadê o efeito da merda do remédio??????????????? Nada. Fui ao médico. Ele NEM OLHOU NA MINHA CARA! Depois de vinte anos, ele me prescreveu.... Prozac!!!!!!!!!!!!!! De novo. Tomei por três dias. E passei SUPER MAL! Resolvi fazer algo que eu nunca tinha feito na vida: PARAR TODA MEDICAÇÃO, COLD TURKEY. E o que aconteceu? A depressão veio como uma tsunami, num rebote incrível, passei por todas as síndromes de abstinência possíveis e imagináveis e... tentei seguir minha vida. Mas... que vida? Eu estava doente. Eu estou doente. 

Mudei de médico. Mudei de remédio. Já faz 19 dias que estou tomando Pristiq. Não senti NENHUM EFEITO até agora. Aí a médica entrou com Donaren - faz dois dias que estou tomando. Uma amiga me mandou florais de saint german pra tomar paralelamente. E eu não paro de chorar. E não quero sair da cama. 

E me exponho no Facebook e sou criticada pra CARALHO. Minha mãe chega na minha casa chorando. "Pára de se expor!!!". Mas eu PRECISO me expor. Eu preciso tirar tudo isso do meu peito. Eu preciso explicar que depressão é uma doença. Que não é frescura. Que não adianta "fazer uma forcinha", nem "sair dessa", nem "ir dar uma volta com a cachorra". "Olha que dia lindo, vai dar uma volta!". Dia, que dia???? Quem tem depressão não vê dia, não vê cachorro, não vê beleza. Quem tem depressão sente uma pressão na cabeça, uma vontade de ficar embaixo do edredon mesmo que esteja 40 graus do lado de fora, quem tem depressão não quer sair pra tomar um café e bater um papo, não quer comer direito, não quer se exercitar, quem tem depressão está DOENTE E MUITO DOENTE, e precisa de compreensão, e atenção, e carinho, e muito amor, e presença física, nem que seja pra deitar na cama junto e ficar lá quietinho olhando pro teto.

Eu percebo que quem lê o que eu escrevo quer ajudar e não sabe como, não tem segredo, ajude como puder, seja estando perto, seja pensando, seja aprendendo a lidar com o assunto. Me magoa muito saber que tem gente que não entende, mas ninguém tem obrigação, não é mesmo?

Enfim, eu resolvi usar esse blog que já estava aberto e vou usa-lo para falar da minha depressão, desabafar e, por fim, educar aqueles que não entendem lhufas sobre a doença. E se você é preconceituoso e me acha uma chata, só tenho uma coisa pra te dizer: o mundo dá voltas e você pode estar assim amanhã. Então mantenha a cabeça aberta. Afinal, se você está lendo esse texto e chegou até aqui, é porque tem interesse.

Beijos!