sexta-feira, 31 de julho de 2015

Quando você está melhor, mas não do jeito que os outros acham

Quando entramos numa crise de depressão, a situação é tão surreal para quem está dentro quanto para quem está fora. Quem está dentro perde a noção de tempo e espaço, de certo e errado, o mundo acaba. Para quem está fora, não é possível imaginar o que estamos passando.

Mas aí com tratamentos e mais tratamentos, começamos a sair do buraco do furacão, numa jornada diária para ficarmos melhores e voltarmos à realidade. Veja bem: a realidade que a sociedade chama de realidade > acordar, se arrumar, ir trabalhar, cuidar dos filhos, fazer supermercado, etc. 

Quem está saindo de uma crise de depressão precisa de uma certa calma. Começar devagar. Ir absorvendo o dia a dia. Mas, quem está de fora não enxerga isso. Acha que só porque você levantou, se arrumou e voltou a trabalhar, puft, acabou, tá tudo bem. E te joga uma carga como se nada houvesse acontecido.

Hoje completei 20 dias de volta ao trabalho, após 34 dias de licença. Não foram 20 dias fáceis. A mudança de medicamento me fez ter insônia, dormir mal e não ficar tão alerta durante o dia. Tive alguns ataques de pânico. Minha vida social continuou praticamente nula, tirando apenas um cineminha com uma amiga. A vida de mãe estava bem devagar. 

Mas hoje senti o peso (e que PUTA PESO) das pessoas que me cercam acharem que nada aconteceu. Que eu não sou doente. Que tá tudo bem. 

NÃO ESTÁ. 

Ainda estou me recuperando. Ainda preciso pegar leve. 

Como explicar no trabalho que não estou preparada para o estresse? Que tenho tomado Rivotril durante o expediente para aguentar o tranco? Que tenho gastado uma fortuna para me tratar, mas não tenho tido tempo de processar as coisas no tempo em que é necessário para o mundo real? Que fazer exercício físico, que é CRUCIAL PARA O MEU TRATAMENTO, não está rolando porque não dá tempo? Como explicar para terem paciência comigo? 

Estou sentindo o peso do mundo nas minhas costas. As crianças voltaram hoje das férias para a minha casa. Segunda-feira as aulas começam. A rotina volta. A rotina de uma pessoa saudável. 

Mas eu não estou preparada. Ainda não. Tenho um longo caminho a percorrer. Como explicar que apesar do cabelo mudado, das unhas feitas, da dieta, de algumas risadas, eu ainda choro, e o melhor lugar no mundo ainda é minha cama, e que não tenho paciência para muita coisa. Como explicar?? Como explicar???

Eu não sei.


segunda-feira, 27 de julho de 2015

Odeio fazer aniversário

Eu odeio fazer aniversário. É um dia normalmente triste. Saudoso de mim mesma. Solitário. Tenho histórias muitos ruins dos meus aniversários. 

Nem sempre foi assim. Até os 14 anos, todos os meus aniversários foram felizes, como deve ser para uma criança e adolescente. Festas repletas de amiguinhos, meus pais eram sempre super criativos, a casa ficava cheia. Meu pai sempre bolava uma lembrança especial, numa época que ninguém dava brinde. Era especial. E já na adolescência, a turma da escola era unida e muito querida. E a casa continuava cheia. Festa como antigamente, na sala de casa. Foram anos felizes.

Aí mudei de escola no colegial. E perdi a referência. Não consegui fazer novos amigos com facilidade, pois estava num mundo totalmente diferente do meu, e meus amigos de infância se afastaram. Eu ia prum acampamento desde os 9 anos, mas as amizades se restringiam ao tempo de duração da temporada. Meu primeiro aniversário muito triste foi aos 16 anos. Quis fazer numa boate. Coisa da época. Convidei todo mundo da escola nova, todo mundo da escola velha, as meninas do ballet. NÃO VEIO NINGUÉM. Fiquei lá, a noite toda esperando. E não veio ninguém. It broke my heart. Ninguém se explicou. Ninguém deu um telefonema. E eu comecei a odiar meus aniversários.

Não, nunca tive uma festa surpresa. Já organizei. Já participei. As pessoas fazem isso. Pra mim, nunca fizeram.

Devo ter tido algumas experiências legais nos meus vinte e poucos, época de faculdade e trabalho em shopping. Tenho algumas fotos. Mas foi isso, e pronto. Parei de comemorar meus aniversários e tentar fazer festa por medo de não vir ninguém. Não conseguiria lidar.

Depois de casei, passei a comemorar meu aniversário de maneira intimista, só com a família. E assim foi. Até chegar meu aniversário de 40 anos. Era um marco na vida. E meu ex-marido (na época marido) me prometeu um jantar especial num restaurante chique. O dia correu bem, com redes sociais, os aniversários passaram a ser um pouco mais divertidos com os parabéns. Anyways, chegou meu aniversário de 40. Chamei minha mãe para ficar com as crianças, para podermos sair. Por volta das 19 horas, minha mãe já em casa, virei pro cara e disse: vou tomar banho e me arrumar. E ele me lançou: "estou tão cansado hoje... podemos ir no sábado?". Oiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii? Como assim, era meu aniversário de 40 anos!!!! Não não podemos ir no sábado! Meu aniversário é hoje!!! Fiquei tão, mas tão magoada (e já estava desamando dele, e isso só foi reforçando a ideia de que eu não queria mais ficar nessa relação), que pus o pijama e fui pro quarto. Sem jantar, porque não tinha NADA na geladeira. Ele veio... "ah, mas fica na sala comigo, é seu aniversário". Mandei tomar no cu e fui dormir. (um mês depois pedi o divórcio).

Nos primeiros dois anos pós-divórcio nem consegui pensar em aniversários. Retomei a coisa família: comprar um bolinho e apagar a velinha com as crianças e minha mãe. Só.

Mas, quando fiz 43... eu estava numa fase boa, feliz, dançando, magra, etc etc etc e resolvi dar mais uma chance: fazer uma festinha em casa para a mulherada. Convidei (sem brincadeira) umas 80 mulheres. Comprei tanta comida, tanto vinho, roupa nova... Vieram 10. Sim, vieram 10 pessoas. A comida sobrou toda. Tentei curtir com as amigas que prestigiaram, comi tudo o que tinha direito, bebi. Mas nunca entendi porque outras 70 pessoas não vieram.

Ano passado foi o pior. Meu aniversário caiu bem no dia dos pais. Meu pai faleceu em 2001 (seis meses antes do meu casamento). E meus filhos foram passar o dia com o pai. Minha depressão estava rondando... passei o dia chorando, no quarto escuro, perdida da vida. Eu estava tão sozinha, mas tão sozinha que não conseguia respirar. No fim do dia, quando as crianças chegaram, me recompus e fomos comer uma pizza. Pois é.

No próximo dia 10 de agosto completo 45 anos. Anos assim são meio marcos, né? Cheguei exatamente na metade da vida (isso se eu for até os 90... rs). Depois de passar pela pior crise de depressão da vida, resolvi que seria bom pra mim comemorar. Mas nada grande. Convidaria apenas aquelas que são mais próximas, que se preocupam, que estão presentes na minha vida de alguma maneira. Convidei seis amigas mais próximas para um queijos e vinhos. Cinco delas me responderam que não podiam naquela data - cada uma com seu motivo super justificável e tal... não fiquei chateada, sei que a vida não é fácil e todos temos nossos problemas. Mas, resolvi desencanar e cancelar. Acho que não nasci pra comemorar aniversários. Às vezes me sinto invisível. Principalmente nesses dias. Não são felizes há muitos anos. Odeio meu aniversário. 


terça-feira, 14 de julho de 2015

Recomeçar pela milésima vez

Ter depressão é aprender a recomeçar de novo. E de novo. E de novo. E quando você acha que já está vivendo bem, levar uma rasteira, cair no fundo do poço, ver uma luzinha e... recomeçar. Over and over and over again.

No comecinho da semana passada senti uma melhora. Foi bom, mas assustador ao mesmo tempo. Significava recomeçar. É como aprender a andar de novo. Voltar a se alimentar direito. Se exercitar. Ser sociável. Parece fácil, mas não é.

Passei de totalmente sedentária em dois meses, sem praticamente sair da cama.... e fiz três aulas de yoga e duas caminhadas em seis dias. Foi muito difícil. Olhar no espelho. Ver como estou fora de forma (de novo). Como minha sociabilidade ainda está falha..... acho que fui muito rápido e no sábado tive um ataque de pânico no meio da aula de yoga. Estava sem remédio, e até chegar em casa e me medicar.... fiquei horas passando mal - aprendizado: andar SEMPRE com remédio na bolsa.

Ontem voltei a trabalhar. Foi um dia longo. Minha cabeça não respondeu direito... tinha centenas de e-mails para ler, assuntos para me inteirar.... saí do escritório exausta, a cabeça explodindo. Mas consegui. O dia passou. A noite chegou. Mantive minha dieta. Tomei minhas medicações. Não consegui me exercitar, mas não adianta tentar fazer tudo de uma vez.

Meu objetivo agora é conseguir atingir um nível mais saudável de vida, tanto saúde física quanto mental, para evitar que as crises de depressão e de pânico voltem. 

Sinto falta de amigos. Mas... enfim, a vida segue.


terça-feira, 7 de julho de 2015

E, de repente, a luz....

Ontem, quando acordei, uma luz bem fraquinha começou a brilhar no meu horizonte. Ela era fraca, mas emitia um calor gostoso, que me fez levantar com uma sensação de.... melhora. Sim, pela primeira vez em muito tempo, acordei sem o olho pesado com vontade de chorar. 

E aí... depois de adiar por uma semana, consegui entrar no carro, e ir até a escola de yoga que eu tanto queria me matricular - pelo menos neste mês de julho. Fui, paguei o mês, entrei na sala e... SOCORRO, QUEM É ESSA ELEFOA BRANQUELA??? Levei um susto ao ver meu tamanho, a calca de ginástica apertada, o collant preto apertado, e meu braço? O que era aquilo, uma árvore molenga? Afe. Respirei fundo. Coloquei meu tapetinho perto do espelho (que era pra eu me olhar mesmo e acreditar no que eu tava vendo), deitei e fui me aclimatando... sim, porque escolhi fazer a Bikram Yoga (sorry Greta*), uma vertente na qual a sala é aquecida em 40 graus Celsius.

Uma hora de aula. Meu corpo todo doía. Tudo travado, sem força. Eu me olhava no espelho e pensava "vai, você consegue!!!!!". E eu consegui fazer uns... 60% da aula. Quando a coisa não ia, eu sentava, tomava um gole de água e esperava a força voltar. Consegui. A aula acabou. Tomei um banho e voltei pra casa com uma sensação tão boa depois de tanto tempo que quase chorei. Mas não chorei. 

Enfim... a luz está aos poucos começando a brilhar... mesmo no dia feio, chuvoso, nublado, frio. Os passos são super pequenos. Mas cada dia de uma vez. Hoje eu comemoro ter acordado toda dolorida. Que delícia. Sentir que eu tenho musculatura!!!! Essa elefoa branca aqui está começando a melhorar.... :)

* Muitos professores de yoga não curtem a prática feita em sala aquecida, muito menos essa técnica específica criada pelo Bikram, que é um cara controverso. Mas sabe quando seu corpo pede essa aula específica? Respeitei meu corpo. Ele pediu o calor nesse frio. O suor. E eu atendi o meu desejo interno. A Greta Hill foi minha primeira professora de yoga na vida e plantou a semente da yoga em mim. A ela sou muito grata, por sua gentileza, suas palavras sábias, sua beleza, sua maneira de ensinar, seu cuidado e carinho. Infelizmente, ela, que é californiana, foi morar em NY em janeiro do ano passado. Mas de vez em quando ela dá a felicidade da sua presença por aqui.


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Depressão ainda é tabu

Há algumas semanas, meu melhor amigo me respondeu no whatsapp quando eu disse que não estava bem e achava melhor ser honesta sobre isso no trabalho e me afastar para me tratar: "não fale que você tem depressão, ninguém gosta de gente deprimida. não deixa ninguém perceber e vai levando".

Primeiro, reavaliei essa amizade e não o considero mais meu melhor amigo, pois como alguém que deveria te apoiar e te entender te fala uma coisa dessa? Segundo, fiz exatamente o oposto: mandei um e-mail para o diretor da empresa onde trabalho e abri o jogo. E não poderia ter feito coisa melhor.

O tratamento que estou recebendo no meu trabalho é uma exceção. A minha depressão não é de hoje e essa não é minha primeira crise, e já fui muito discriminada por isso. Porque depressão não se enxerga, não aparece em ressonância magnética, não aparece em exame de raios X nem de sangue. Então, como provar que estamos doentes? Existe um grande tabu sobre o deprimido. É uma pessoa chata, sempre triste, sempre resmungando, sempre de mau humor, sempre pra baixo e ninguém quer alguém assim ao lado. Mas o que ninguém sabe é que essa pessoa está assim de maneira involuntária. Acredito que exista gente que curta estar pra baixo e essa seja uma maneira de chamar atenção. Mas "estar pra baixo" é proposital, a pessoa quer se fazer de vítima. O deprimido está como está porque tem uma alteração neurológica, que muitas vezes só é resolvida com remédios e também terapia. 

Não sou médica, nem especialista no assunto do ponto de vista acadêmico, mas sou expert nos sentimentos do deprimido. Estamos vivendo uma guerra interna minuto a minuto, com alterações de humor, com vontades de sumir e outras de ficar, com vontade de se esconder, não falar com ninguém, mas também ao mesmo tempo precisando de carinho, proteção, amor, apoio. Só que é MUITO difícil fazer com quem está ao redor entenda. MUITO. DEMAIS DA CONTA. 

Às vezes acho que seria mais fácil eu ter algo mais palpável para que eu pudesse mostrar que estou doente e que as pessoas ao meu redor entendessem. Pode ser uma grande bobagem dizer isso, mas é verdade!

Ao longo dos anos, sei que perdi amigos, namorados e empregos por conta da minha depressão. Durante muito tempo fiquei triste com isso, me questionando o que eu poderia ter feito de diferente. Nada!!!! Não existe nada que eu pudesse ter feito de diferente. 

E como será minha vida daqui pra frente? Não dá pra prever. Se eu quero ficar boa? CLARO! Estou num estágio da doença que quero melhorar (versus o começo da crise, que eu queria sumir do mapa). Isso já é sinal de melhora. Vou ficar melhor? Tenho certeza que sim, como muitas vezes. Nesse meio tempo conhecerei pessoas que não sabem da minha doença e não saberão se ela não voltar. Mas caso perguntem, não terei problema algum em contar sobre o que é e como me sinto.

O importante é que a depressão deixe de ser tabu. Que as pessoas deixem de incentivar quem está doente a se calar, a esconder seus sentimentos, por ser uma doença incompreendida. Dependendo da gravidade do caso, isso pode ser a sentença de morte daquela pessoa. Se é uma doença incompreendida ainda - e olhe que até nos Estados Unidos já aprovaram o casamento independentemente de gênero, o que era um dos maiores tabus do país (mas essa é outra história), vamos educar a sociedade a entender o deprimido. Eu estou fazendo minha parte. 


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Sumir do mapa

** AVISO ** - POST FORTE

Desde que fui diagnosticada com depressão, tenho essa falsa sensação de que "sumir do mapa" vai resolver todos os meus problemas. No começo, o tal desaparecimento estava normalmente ligado a uma viagem, mudança de cidade, etc. Mas há alguns anos, o "sumir do mapa" passou a ter um significado mais metafórico: eu realmente queria evaporar. Deixar de existir. Só assim a dor passaria. 

Em 1999 em resolvi sumir do mapa, ou melhor, tentar a vida do outro lado do mundo e fui com a cara e a coragem para a Austrália, na verdade verdadeira, para conhecer um cara com quem eu estava me correspondendo online. Sim. Você leu direito: 1999!!! Eu tinha 28 anos, não tinha tido nenhum namoro que tivesse sido significativo em termos de tempo, e eu queria conhecer alguém, casar, etc e tal. Foi no antigo Match.com que eu conheci o Boaz. Depois de seis meses de ICQ (lembram?), muitos e-mails e telefonemas internacionais, veio o convite: "vem me visitar". Eu entendi "vem morar comigo" rs, me empacotei e fui - para horror dos meus pais. Como conhecer alguém pela Internet não era nada comum naquele momento, eu dizia a todos que ia tentar a vida por lá.

O namoro durou dois meses, foi muito interessante viver o dia a dia do australiano (apesar de estar na casa de uma família de israelenses que imigrou para a Austrália), mas percebemos que não era caso de casamento. Peguei uma mochila emprestada e passei o resto do tempo do meu visto viajando pela costa australiana. E voltei pro Brasil, com o coração pequenininho. Minha "fuga" não havia dado certo.

Um ano depois conheci meu ex-marido, mas isso é outra história.

Enfim.... sumir do mapa. Eu tenho essa fixação por pegar o carro e ir embora. Se vou voltar, não sei. Tendo filhos, é uma batalha interna constante. Muitas vezes fico sentada dentro do carro pensando... é hoje!!! "Vou embora dessa cidade", "preciso passar um mês na praia", "quero sumir". Afirmações de uma pessoa passando por uma depressão filha da puta que realmente acha que sumir vai resolver todos os problemas. Às vezes penso que recomeçar a vida em um lugar onde ninguém me conhece vai ajudar na minha doença. Depois percebo que a doença está em mim e, não adianta... pra onde quer eu eu vá, ela irá comigo. 

Sumir do mapa também tem a conotação de morrer? Claro!!!! Nos piores dias (noites na verdade) da minha depressão, pensei em várias coisas, pensei em métodos, pesquisei na internet. Com dor, sem dor? Sim, não fique chocado. Quem está extremamente deprimido é super suicida sim. Sem tabus. A pessoa quer que a dor pare. É uma dor inexplicável que sentimos. Uma dor na alma. 

Apesar de ser judia, há muitos anos deixei de acreditar em Deus e me considero ateia.  No que acredito? Em mim. Não acredito em nada mais. Portanto, dizer que tenho dor na alma é estranho, pois não acredito em alma. Nem em vida após a morte, nem em paraíso e inferno, nem em extraterrestres. Acredito que estou aqui agora respirando e vivendo, e que amanhã tudo isso pode mudar. E o que é morrer? É deixar de existir. É sumir do mapa.

Mas por que eu não vou em frente e sumo do mapa? Ainda não sei responder. É uma pergunta muito complexa. Posso sumir e voltar de vez em quando? 

Tem dias que a dor é tamanha.... mas tem dias que eu quero viver e ficar boa e reconstruir minha vida - já sou craque em reconstruir minha vida, mas ela acaba sempre se despedaçando de novo. 

Não consigo não pensar nos meus filhos. Eu acordo e vou dormir pensando no sorriso deles e o quanto eles me amam incondicionalmente, mesmo eu estando doente, gorda, sem paciência pra brincar nem ouvir as novidades que eles têm pra me contar. 

Eles são a única coisa no mundo que me mantém aqui atualmente. 

Por hora, não sumirei do mapa.


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Quem sou eu?

Nos últimos dias, algumas pessoas falaram "escreve um livro", "escreve um blog". Mal sabiam elas  que em agosto do ano passado eu havia começado este blog sobre a minha vida com depressão, mas fiz apenas um post e nunca divulguei. Porque eu não sabia se isso me ajudaria ou atrapalharia. Eu quero muito que me ajude. Compartilhar o que sinto pode ajudar pessoas que passam pelo mesmo que eu a se sentirem iguais. Compartilhar o que sinto pode ajudar familiares e amigos de quem sofre de depressão a entendê-los melhor. Portanto, por que não tentar? O máximo que pode acontecer é ninguém ler o que eu escrevo, certo?

Enfim, essa é minha história:

Fui diagnosticada com depressão aos 25 anos, após não lidar muito bem com o término de um namoro. Não era tristeza, era algo muito maior. Mas, eu sei que minha depressão começou muito antes. Provavelmente por volta dos 15 anos, quando mudei de escola e fui estudar em um colégio que não tinha absolutamente nada a ver comigo. Sendo judia e tendo passado 14 anos da minha vida fechada na comunidade (apesar de ser totalmente liberal), foi um choque cultural sair da caixinha. E eu não me adaptei. E me vi sozinha. Muito sozinha. Com certeza, a sementinha da depressão começou a crescer nesse momento. Fora da escola eu tinha minha amigas do ballet, tinha meus amigos do acampamento que eu frequentava, mas no dia a dia.... minha vida era sem graça e solitária. Eu passava os fins de semana trancada no meu quarto. Ouvindo músicas de fossa e chorando. Mas ninguém percebeu, muito menos eu. Eu apenas me achava diferente dos outros. E eu era mesmo. Eu tinha depressão. E demorei muito para descobrir porque eu me sentia daquele jeito.

Enfim, diagnosticada e colocada no Prozac, a droga da felicidade. De repente, eu, que me sentia infeliz o tempo todo, passei a ser a pessoa mais feliz do mundo. Perdi o apetite, emagreci demais, tinha toda energia, estava sarada, malhada feito uma louca. Tudo isso durou seis meses, até que o Prozac parou de fazer efeito. E aí.... foram 20 anos de remédio em remédio em terapias mal sucedidas e mais remédios e mais remédios, melhoras, pioras, até que conheci meu ex-marido e minha felicidade foi tão grande que eu senti que poderia parar de tomar remédio e assim o fiz. Foram três anos sem tomar nenhum remédio - época que perdi meu pai, me casei e tive minha primeira filha. Segurei a onda mais ou menos. Depois que a Julia nasceu, não tive depressão pós-parto. Mas depois de alguns meses, as coisas foram decaindo e decaindo e eu voltei pro meu médico de tantos anos.

O que posso dizer? Que nesses últimos 11 anos troquei de remédios 200 vezes. Tive épocas boas e felizes, claro. Mas minhas mudanças de humor fez com que eu perdesse muitos amigos, que eu me desentendesse com familiares, e que eu sentisse mesmo que eu era muito diferente. Porque eu tinha depressão. E quem tem depressão é diferente. Vê a vida com outros olhos. Sente diferente. Não estou falando isso de maneira "ah, somos especiais". Pelo contrário. É horrível.

Com certeza magoei muita gente nesses últimos 44 anos, por coisas que disse ou escrevi. Aliás, eu escrevo. Muito (por que será mesmo escolhi ser jornalista??) E sou honesta. E tem algo que me impede de mentir, então eu falo a verdade e a verdade machuca. Se isso é uma característica minha ou da depressão, eu não sei. Mas não é fácil.

Enfim... me separei em 2010 por uma série de motivos que não são relevantes nesse momento. Me vi sozinha com duas crianças full time, tendo que trabalhar full time. Demorei mais de dois anos para conseguir me reerguer. O remédio segurou a onda, mas tinha dias que eu queria sumir da face da Terra. Aliás, eu tenho muito disso: vontade de sumir da face da Terra.

No fim de 2012 voltei a dançar, coisa que estava adormecida em mim - sou bailarina clássica. De repente me vi fazendo algo que eu amava. E resolvi me amar. Fiz dieta, continuei dançando, emagreci... mas a depressão continuava rondando, sempre rondando. Mesmo dançando, magra, com remédio, eu tinha minhas crises de choro, meus desesperos, minha vontade de sumir.

Até que em janeiro de 2014 eu fui expulsa da escola de dança que eu tanto amava. E parei totalmente de fazer atividade física por três meses. Juntou-se a isso um probleminha com a minha filha e o 'relacionamento' com um cara filho da puta, que me enganou pacas. Pronto... era a receita perfeita para eu despencar. E eu despenquei. Meus remédios pararam de fazer efeito. Eu, pela 1a vez na vida, não conseguia sair da cama. Nem trabalhar. Nem cuidar dos meus filhos. Só comia comia comia e comia. Engordei 20 quilos. Fiz um pouco de yoga aqui e ali. Mas não tinha disposição pra nada. Meu médico trocou tantas vezes meus remédios que eu perdi conta do que eu já havia ou não havia tomado. Depois de 40 dias tentando, finalmente dois remédios fizeram efeito e eu passei duas semanas sem sentimento algum. Imagina o que é isso? Não sentir NADA? Foi um platô. Nisso, comecei a fazer terapia comportamental. Era outubro. E eu não conseguia fazer nada. E pensei - e tentei - me matar pela primeira vez. Mas quem tem filhos não consegue. Até pensa. Até tenta. Mas não consegue. 

Aos poucos fui melhorando. Bem aos poucos. Não cheguei a ficar 100% em nenhum momento. Virou o ano... 2015. E minha vida parecia estar empacada. Perdi parte considerável de um trabalho e isso me obrigou a voltar a procurar emprego. Eu trabalhava há dez anos por minha conta - os últimos quatro anos em home office. E isso mascarava minha depressão. Porque eu não precisava prestar contas pra ninguém do que estava sentindo, ou porque eu não conseguia sair da cama antes do meio-dia.

Em março, voltei a trabalhar em uma agência. E foi PUNK!!!! Ficar sentada das 9 às 18hs no meio de um monte de gente que eu não conhecia, ter que falar bom dia, sorrir, ser gentil, esconder com todas as forças que eu não estava tão bem assim. Mas todos temos contas pra pagar, não é mesmo? (Bom, nem todos, tem dias que eu queria tanto ser dondoca...).

E aí os dias foram passando, passando, passando e há mais de um mês de novo, cadê o efeito da merda do remédio??????????????? Nada. Fui ao médico. Ele NEM OLHOU NA MINHA CARA! Depois de vinte anos, ele me prescreveu.... Prozac!!!!!!!!!!!!!! De novo. Tomei por três dias. E passei SUPER MAL! Resolvi fazer algo que eu nunca tinha feito na vida: PARAR TODA MEDICAÇÃO, COLD TURKEY. E o que aconteceu? A depressão veio como uma tsunami, num rebote incrível, passei por todas as síndromes de abstinência possíveis e imagináveis e... tentei seguir minha vida. Mas... que vida? Eu estava doente. Eu estou doente. 

Mudei de médico. Mudei de remédio. Já faz 19 dias que estou tomando Pristiq. Não senti NENHUM EFEITO até agora. Aí a médica entrou com Donaren - faz dois dias que estou tomando. Uma amiga me mandou florais de saint german pra tomar paralelamente. E eu não paro de chorar. E não quero sair da cama. 

E me exponho no Facebook e sou criticada pra CARALHO. Minha mãe chega na minha casa chorando. "Pára de se expor!!!". Mas eu PRECISO me expor. Eu preciso tirar tudo isso do meu peito. Eu preciso explicar que depressão é uma doença. Que não é frescura. Que não adianta "fazer uma forcinha", nem "sair dessa", nem "ir dar uma volta com a cachorra". "Olha que dia lindo, vai dar uma volta!". Dia, que dia???? Quem tem depressão não vê dia, não vê cachorro, não vê beleza. Quem tem depressão sente uma pressão na cabeça, uma vontade de ficar embaixo do edredon mesmo que esteja 40 graus do lado de fora, quem tem depressão não quer sair pra tomar um café e bater um papo, não quer comer direito, não quer se exercitar, quem tem depressão está DOENTE E MUITO DOENTE, e precisa de compreensão, e atenção, e carinho, e muito amor, e presença física, nem que seja pra deitar na cama junto e ficar lá quietinho olhando pro teto.

Eu percebo que quem lê o que eu escrevo quer ajudar e não sabe como, não tem segredo, ajude como puder, seja estando perto, seja pensando, seja aprendendo a lidar com o assunto. Me magoa muito saber que tem gente que não entende, mas ninguém tem obrigação, não é mesmo?

Enfim, eu resolvi usar esse blog que já estava aberto e vou usa-lo para falar da minha depressão, desabafar e, por fim, educar aqueles que não entendem lhufas sobre a doença. E se você é preconceituoso e me acha uma chata, só tenho uma coisa pra te dizer: o mundo dá voltas e você pode estar assim amanhã. Então mantenha a cabeça aberta. Afinal, se você está lendo esse texto e chegou até aqui, é porque tem interesse.

Beijos!